6 de jun. de 2013

I could

I could write you a poem, if you wanted to.
I could compose you a song, if you wanted to.
I could make a drawing for you, if you wanted to.
But you don't want. Left my poems, harmony notes,
beautiful songs, cutest drawings and others, to the wind.

2 de jun. de 2013

Autopsicografia

Nunca antes postei aqui poesias que não fossem de minha autoria. Mas faz-se exceção à melhor descrição já feita acerca dos viveres de um poeta. Talvez uma das poesias mais geniais de F. Pessoa. Há quem discorde, mas acredito que nunca antes, tanto quanto nunca mais, um poeta há de sentir-se tão bem retratado.


O poeta é um fingidor.
E finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente

E os que lêem o que escreve
Na dor lida sentem bem
Nãos as duas que ele teve
Mas só a que eles não tem.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

                           Fernando Pessoa, Lisboa, 1915.

Probabilidades

-Sete bilhões de indivíduos andantes acerca do globo... Há quase um pra cada quilômetro quadrado. – Dizia o garoto, com o rosto contra a mesa de mogno. – E me vejo pleiteando o inacessível.
O Pai lhe conferia afagos periódicos, e, entre múrmuros e sussurros inaudíveis, disse:
-Essas coisas a gente não escolhe, menino. São como fatalidades. Sâo tão imprevisíveis quanto a morte. Você pode morrer ao sair pra ir pra aula, assim como se apaixonar no caminho de volta.
-Já estou apaixonado, pai. Isso é certeza; enquanto a morte, possiblidade remota.
Ouvindo tais palavras, o Pai suspirou. Não devia tê-lo deixado ler tantos livros.

27 de mai. de 2013

A poesia do poeta morto

Sem nada a fazer,
Sem nada a decidir,
Não pude descrever
O mais puro sentir.

Pois nada senti
Afora o desprazer
De nada decidir
E, assim, sofrer!

Confortando-me, morri;
Pois não pude lhe falar
Que nunca antes aprendi
As nuances do amar.

Continua-se, então,
Este eterno vestibular.
Questão por questão
Só me resta estudar.

Estudando como um zumbi,
Um dia hei de encontrar:
A definição do que senti -
E o significado desse tal “amar”.

26 de mai. de 2013

Novos ares


No ônibus, os mesmos rostos.
Por todo o lado, a triste burguesia.
Até o advento de novos ventos:
Fizeram brotar novamente a poesia.

Às tardes, um novo gosto.
Ao viver, nem imaginas:
Vento no rosto, vento disposto
Novos ares a novas rimas.

23 de mai. de 2013

I'd marry you

"I'd marry you, since the first time we talked
Since the first time i've seen you walkin' in your blue Low Sneakers
I'd marry you, I've said
Maybe not today,
Maybe any other day..."

22 de mai. de 2013

A Disco Ball


-“Quantas cores você enxerga no anteparo, aqui, após a cortina? Garoto.”-Disse a doutora, afastando o paninho que obscurecia a luminescência reflexiva da disco ball.
-“Preto e branco, doutora.”-Disse o jovem, lacônico e indiferente.
-“Você tem miopia, garoto.”
-“Mas... Eu costumava ver cores, há anos atrás.”-Replicou o jovem, ainda indiferente. Sua fisionomia era fraca; com olheiras fundas; e a pele, esbranquiçada, como se todo seu conjunto fosse resultado de uma maçante jornada intelectual forçada.
-“Eu também, garoto. Nossa doença? Somos suicidas. Todos nós, exceto alguns poucos reacionários que, conscientes desta degradação social irreversível, escapam das garras da frígida realidade a que somos dispostos."
A doutora sentou-se na mesinha ridiculamente pequena, passando a rabiscar a ficha do paciente atual, movimentando a caneta em gestos maquinários.
O garoto já tinha saído da sala. Na verdade, já saia do hospital. Já tinha ouvido o bastante. Estava morto, pois não podia ver cores.

4 de mai. de 2013

Amor de Engenheiro...


Ela é tão humana, eu, tão exato..
ela faz jornalismo, eu, engenharia;
ao vê-la, esqueço qualquer cálculo...
Me sinto Quintana, ao ver sua Cecília.
"Impossivel", dizem os errantes...
improvável, o maior dos absurdos
Que dois mundos tão distantes
possam, um dia, terminar juntos.
Terminam-se, então, as rimas...
isto é além da minha capacidade.
Restam-me equaçoes indecisas,
amor em cálculos de probabilidade.
Neste silêncio desconfortável
enuncio, então, a questão:
Você quer ser a variável
que falta na minha equação?

3 de abr. de 2013

O que falta?


O que falta para todos serem felizes?

Falta mais corações se entregarem ao amor.
Falta mais desapego ao horário.
Falta mais desapego ao velho fervor
de viver-se em busca do salário... 

1 de abr. de 2013

Os Olhos do Poeta


            Tenho um amigo chamado Eduardo. Ele é um quase-poeta, amante verdadeiro da poesia. É o tipo de indivíduo que vê poesia nas coisas mundanas e insossas aos olhos dos passantes mundanos.
            Uma vez ele se apaixonou por uma “funkeira” arquetípica, Juliana; ou Ju, para os mais íntimos; ou até Ju Barte para os frequentadores dos mesmos ambientes da moça.
 Ela não inspirava nenhum Soneto de Fidelidade. Não inspirava nem mesmo um haicai pós-modernista. Usava roupas de liquidação, de número menor que seu manequim, possibilitando que alguns excessos se tornassem visíveis. Não que a vestimenta do indivíduo determine sua personalidade, mas, na grande maioria das vezes, dá indícios certeiros de suas nuances.
Lembro d’ele ter escrito um soneto à pretendida, que, dentro de suas possibilidades, ficou esplêndido. Versos decassílabos, perfeitamente métricos; e rimas ricas, quase parnasianas, só que objetivas.
Eram tempos obscuros. O Orkut reinava, e Eduardo dedicou a ode à sua paixão pelo meio que imperava no período: depoimento, ou “depô”.  A homenageada nunca o leu, pois achou cafona e “chato” ( termo comunmente empregado por trogloditas em face a algo novo, de beleza naturalmente complexa, ou seja, que exija esforço por parte da massa cinzenta).
Eduardo não se deixou abater, e continuou fielmente em sua contenda por meses a fio, tricotando sonetos cada vez mais complexos para exaltar sua paixão platônica.
Até ter seu coração partido.
Mas ele continuou poeta. Ainda vê poesia nos casais de pombas que compartilham a pipoca da senhora idosa, enquanto espera o ônibus. Ainda vê poesia no namoro das figueiras, em frente a sua casa. Ainda vê poesia na compaixão da tia Zilda, cobradora da linha Assis Brasil-Centro, que recebe todos os  passageiros indiferentes com seu sorriso largo e espontâneo. Ainda vê poesia no modo como sua avó sexagenária trata seu avô moribundo. Ainda vê poesia nos prédios antigos que vislumbra à janela do ônibus, no caminho para do trabalho, no centro de Porto Alegre. Ainda vê poesia na dança das luzes que ocorre diariamente nos engarrafamentos de fim de tarde, na Avenida Assis Brasil. Ainda vê poesia no modo como sua irmã caminha, passo por passo, como se cada nova pisada fosse uma conquista.
Ainda vê poesia nas coisas.
Ele vê essa poesia pois é apaixonado pela vida, aceitando sua perfeição natural, sem se apegar ao inalcançável; e sim apreciar aquilo que lhe é permitido apreciar.
Pois a poesia está nos olhos do apaixonado.